Regressado do cativeiro em Argel, Miguel de Cervantes esteve uns meses em Lisboa. Tinha viajado pela Itália meridional, participado na Batalha de Lepanto, vivido em cativeiro no Norte de Africa e desembarcado em Barcelona no seu regresso Península Ibérica, que depois veio a atravessar. Das costas mediterrânicas costa atlântica, na cidade do Tejo. Na sua última obra, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, historia setentrional, publicada um ano depois da sua morte, em 1616, conta dos mares, ilhas e gentes do Norte e das terras e gentes do Sul por onde peregrinam os seus protagonistas depois de desembarcar em Lisboa. Foi há 400 anos e este livrito pretende, modestamente, homenagear a obra e o autor. Um dos personagens do livro de Cervantes é Manuel de Sousa Coutinho - o futuro escritor português Frei Luís de Sousa que Camilo tanto admirou e Garrett consagrou no seu drama romântico. Movido pela «curiosidade a procurar na novela de Cervantes a prova da amizade íntima», «ou sequer a prova de se terem conhecido», ao tempo em que ambos estiveram cativos no norte de Africa, Camilo Castelo Branco traduziu e comentou o episódio do «enamorado português». Por isso, aqui se reproduz também parte desse texto de Camilo. Que o "leitor amantíssimo" de Cervantes disfrute, com muito gosto, de um livro enorme que o seu autor quis que fosse de entretenimento! Vale.
Enfim, vendo eu passado o limite dos dois anos, voltei a suplicar a seu pai ma desse por esposa. Ai de mim, que não é possível deter-me nestas circunstâncias, porque s portas da vida me está a chamar a morte e temo que não me vai dar já espaço para contar as minhas desventuras: que, se isso acontecesse, não as teria eu por tal! Finalmente, um dia avisaram-me que, num domingo próximo, me entregariam a minha desejada Leonor, notícia esta que pouco faltou para tirar-me a vida, tal foi o meu contentamento. Convidei os meus parentes, chamei os meus amigos, fiz trajes de gala, enviei presentes, com todos os requisitos que pudessem mostrar ser eu quem me casava e Leonor a que ia ser minha esposa.
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Regressado do cativeiro em Argel, Miguel de Cervantes esteve uns meses em Lisboa. Tinha viajado pela Itália meridional, participado na Batalha de Lepanto, vivido em cativeiro no Norte de Africa e desembarcado em Barcelona no seu regresso Península Ibérica, que depois veio a atravessar. Das costas mediterrânicas costa atlântica, na cidade do Tejo. Na sua última obra, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, historia setentrional, publicada um ano depois da sua morte, em 1616, conta dos mares, ilhas e gentes do Norte e das terras e gentes do Sul por onde peregrinam os seus protagonistas depois de desembarcar em Lisboa. Foi há 400 anos e este livrito pretende, modestamente, homenagear a obra e o autor. Um dos personagens do livro de Cervantes é Manuel de Sousa Coutinho - o futuro escritor português Frei Luís de Sousa que Camilo tanto admirou e Garrett consagrou no seu drama romântico. Movido pela «curiosidade a procurar na novela de Cervantes a prova da amizade íntima», «ou sequer a prova de se terem conhecido», ao tempo em que ambos estiveram cativos no norte de Africa, Camilo Castelo Branco traduziu e comentou o episódio do «enamorado português». Por isso, aqui se reproduz também parte desse texto de Camilo. Que o "leitor amantíssimo" de Cervantes disfrute, com muito gosto, de um livro enorme que o seu autor quis que fosse de entretenimento! Vale.
Enfim, vendo eu passado o limite dos dois anos, voltei a suplicar a seu pai ma desse por esposa. Ai de mim, que não é possível deter-me nestas circunstâncias, porque s portas da vida me está a chamar a morte e temo que não me vai dar já espaço para contar as minhas desventuras: que, se isso acontecesse, não as teria eu por tal! Finalmente, um dia avisaram-me que, num domingo próximo, me entregariam a minha desejada Leonor, notícia esta que pouco faltou para tirar-me a vida, tal foi o meu contentamento. Convidei os meus parentes, chamei os meus amigos, fiz trajes de gala, enviei presentes, com todos os requisitos que pudessem mostrar ser eu quem me casava e Leonor a que ia ser minha esposa.
A LISBOA DE MIGUEL DE CERVANTES é um livro do gênero LITERATURA do autor FERNANDA DE ABREU, MARIA editado por EDIÇOES COLIBRI no ano 2017.
A LISBOA DE MIGUEL DE CERVANTES tem um código ISBN 978-989-689-721-5. Neste caso, é o formato papel, mas não temos A LISBOA DE MIGUEL DE CERVANTES em formato ebook.
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